Aurelia coerulea (Cnidaria, Scyphozoa) como organismo modelo : revisão sistemática e avaliação dos efeitos de partículas de tintas anti-incrustantes em diferentes vias de exposição
Autor: Laís Olivera das Neves (Currículo Lattes)
Resumo
As partículas de tintas anti-incrustantes (PTAs) são amplamente utilizadas para prevenir a bioincrustação em estruturas submersas, porém representam uma fonte relevante de contaminantes no ambiente marinho devido à liberação de biocidas. Apesar de sua ocorrência em sedimentos e na coluna d'água, ainda são escassos os estudos que avaliam seus efeitos ecotoxicológicos considerando múltiplas vias de exposição. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo investigar a toxicidade de PTAs em diferentes estágios do ciclo de vida da água-viva Aurelia coerulea, comparando exposições via água (waterborne) e via alimentação (dietborne), além de integrar uma análise da literatura sobre o uso do gênero como organismo modelo em bioensaios. A análise da literatura revelou alta variabilidade metodológica entre estudos com Aurelia, especialmente em parâmetros como temperatura, fotoperíodo, regime alimentar, tempo de exposição e seleção dos estágios de vida, fatores que influenciam diretamente as respostas dos organismos e dificultam a comparabilidade entre os estudos. Ensaios laboratoriais foram conduzidos com pólipos e éfiras de A. coerulea, expostos diretamente às PTAs ou alimentados com náuplios de Artemia franciscana previamente contaminados, simulando a exposição trófica. Adicionalmente, ensaios com A. franciscana foram realizados para determinar concentrações capazes de induzir efeitos subletais nos náuplios sem comprometer totalmente sua sobrevivência. Nos pólipos, foram avaliadas a desintegração e a contração dos tentáculos; nas éfiras, a imobilidade e a frequência de pulsação; e, em A. franciscana, a imobilidade e a alteração natatória. Os resultados demonstraram que a toxicidade das PTAs varia em função da formulação da tinta, da via de exposição e do estágio do ciclo de vida, sendo a exposição via água mais tóxica em comparação à via alimentar, embora efeitos também tenham sido observados na exposição via dieta. De maneira geral, as éfiras demonstraram maior sensibilidade em relação aos pólipos. A quantificação de cobre nos lixiviados evidenciou a liberação de contaminantes para o meio aquoso, contribuindo para os efeitos observados. Assim, a integração de múltiplas vias de exposição e estágios de vida em um mesmo delineamento experimental, como realizado neste trabalho, contribui para uma avaliação mais abrangente dos efeitos ecotoxicológicos das PTAs. Os resultados mostram que a toxicidade de PTAs não é consistente entre vias de exposição e estágios do ciclo de vida, e que a variabilidade metodológica observada na literatura influencia a interpretação desses efeitos, indicando que abordagens baseadas em um único modelo experimental podem levar a interpretações incompletas do risco ecotoxicológico.