Variabilidade no sistema frontal da corrente circumpolar antártica e o seu impacto na água profunda circumpolar
Autor: Brendon Yuri Damini (Currículo Lattes)
Resumo
A Corrente Circumpolar Antártica (ACC) transporta grandes volumes de Água Profunda Circumpolar (CDW), uma massa de água relativamente quente e salina que constitui importante fonte de calor para as margens continentais antárticas. Nas últimas décadas, o aquecimento da CDW tem sido associado ao aumento da fusão basal das plataformas de gelo e à perda de massa da camada de gelo antártica. Entretanto, os mecanismos responsáveis pela redistribuição desse calor no oeste da Antártica e no norte da Península Antártica ainda não são completamente compreendidos. Esta tese investiga os processos que controlam a variabilidade termohalina da CDW e de massas de água derivadas dela em dois contextos oceanográficos: a borda sul da ACC nos mares de Amundsen e Bellingshausen e o estreito de Bransfield. Para isso, foram combinadas observações hidrográficas, altimetria por satélite, campos atmosféricos e a reanálise oceânica de alta resolução GLORYS12v1. No setor Amundsen-Bellingshausen, o aquecimento interdecenal da CDW ao largo da plataforma continental foi dominado por processos advectivos ao longo de isopicnais, associados ao fortalecimento do Giro de Ross e ao aumento das trocas de calor transversais à ACC. O deslocamento meridional da Frente Sul da ACC apresentou contribuição secundária. Em escalas sazonal e interanual, a intensidade e a extensão espacial do Giro de Ross estiveram fortemente relacionadas ao rotacional da tensão superficial oceânica, enquanto os fluxos de flutuabilidade exerceram papel menos relevante. Estados mais intensos do giro coincidiram com águas subsuperficiais mais quentes e salinas sobre o talude e ao largo dos mares de Amundsen e Bellingshausen. Contudo, essas anomalias não se propagaram uniformemente para a plataforma continental. No mar de Amundsen, observaram-se resfriamento, dessalinização e aprofundamento da termoclina, enquanto o mar de Bellingshausen apresentou aquecimento, salinificação e elevação da termoclina. Esses contrastes indicam que a transferência de calor para a plataforma depende de processos regionais, incluindo ventos costeiros, geometria batimétrica e estrutura frontal. No estreito de Bransfield, a circulação de verão e o transporte de águas com influência do mar de Bellingshausen responderam à variabilidade atmosférica de grande escala. Os efeitos combinados do Modo Anular Sul e do El Niño-Oscilação Sul modularam os ventos regionais, a posição da Frente Sul da ACC e a intrusão de CDW, alterando a circulação e a distribuição das massas de água. Em conjunto, os resultados demonstram que a variabilidade de larga escala da ACC, do Giro de Ross e dos modos climáticos pré-condiciona a redistribuição de calor ao redor da Antártica, enquanto sua transferência efetiva para plataformas continentais, margens glaciais e bacias costeiras é regulada por mecanismos regionais e locais. Esses resultados contribuem para compreender como mudanças futuras nos ventos de oeste e na circulação do oceano Austral poderão modificar a intrusão de CDW e a estabilidade das geleiras e plataformas de gelo do oeste da Antártica.